Total de visualizações de página

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

DISCO VOADOR




Toda manhã antes do alvorecer levantava-me com alguma dificuldade. Arrastava o meu ursinho de pelúcia pelo chão e seguia em direção da janela da sala para observar Lino na varanda de sua casa, sentado em sua cadeira de balanço. Eu tinha seis e ele cinco anos. Lino era diferente, vivia excepcionalmente em seu próprio mundo. Sua mãe o abandonou assim que percebeu seu problema, seu pai desiludido da vida desapareceu, e dona Lídia, sua avó, assumiu a dolorosa missão de cuidar dele.
A assistência médica governamental não amparava esta especialidade, obrigando a persistente mulher a administrar a criação do menino com os minguados recursos de sua aposentadoria. O diagnóstico médico traçava um futuro sombrio para Lino. Como não havia escolas públicas especiais, ele passava os dias em casa, isolado em seu mundo.                      
Diariamente antes do amanhecer dona Lídia levava-o para o alpendre da casa. Sentava-o numa cadeira de balanço onde permanecia horas e horas com olhos fixos no horizonte. Lino firmava os olhos no céu e admirava o despertar do dia. Esta harmonia era interrompida com um murmúrio contínuo e constante que chegava a ser irritante.
-“hummmmmmmmmmmm...........hummmmmmmmmmmmmmm.....”.
Meu pai dizia que esta era uma forma que ele encontrava de se comunicar com o mundo exterior. Lino murmurava num sincronizado vai e vem levando seu corpo na cadeira de balanço para frente e para traz. Parecia estar desligado ao que acontecia a seu redor. Esta rotina se estendia noite á dentro. Lino olhava fixamente para o céu  observando as estrelas e os planetas que brilhavam no firmamento. Às vezes era possível observar em seus lábios um sorriso, como se pudesse estar olhando alguma coisa que eu não  tinha conhecimento suficiente para entender.
Lino não frequentava escola, no entanto, a turma do colégio o conhecia e se reunia em frente ao portão de sua casa para vê-lo. Era um espetáculo deprimente, entre uma brincadeira e outra debochávamos  do pequeno Lino, que sem entender as brincadeiras ficava agitado, balançava sua cadeira  com tanta violência parecendo que ia tombá-la. O seu murmúrio passava a ter um som diferente mais  agudo, assustador  e com muita  intensidade...
“Hummmmmmmmmmmm.........hummmmmmmmmmmmmmmm...hummmmm hummmmmmmmmmmm.

Meus colegas sem compreender o drama de Lino riam achando engraçado aquela reação. Apesar de não concordar com eles, eu não era capaz de impedir tal comportamento, e algumas vezes para não ficar mal com a turma, mesmo que intimamente  contrariado  liderava algumas brincadeiras, jogando bolinhas de papel, fazendo caretas e correndo em sua direção como se fossemos agredi-lo, mas tudo não passava de arroubos  da puberdade, e quando o silêncio tomava conta do meu quarto eu sempre me arrependia.
Alguns anos se passaram. Com a adolescência eu amadureci. Apesar de já pensar em outras coisas, queria curtir a vida. Na ânsia de conhecer novos horizontes, libertei-me das influências de meus colegas.  Lino estava com treze anos e seu ritual continuava o mesmo.
 Numa tarde quando retornava da escola tive o ímpeto de me aproximar, queria conhecer de perto o mundo que ele vivia.
Meu coração pulsava descompassadamente. Cheguei a frente de seu portão, timidamente ergui meus olhos e o vi sentado em sua cadeira de balanço murmurando e balançando em seu ritmo sincronizado.
- “ Hummmmmmmmmmmm, hummmmmmmmmm....................,”
Tive a certeza que eu não prolongaria mais meu desejo de comunicar-me. Entrei e deixei minha mochila num canto do alpendre. Tive receio de assustá-lo. Lino não notou minha presença e continuava em seu mundo particular. Estava sozinho, sua avó andava ocupada com seus afazeres domésticos. Sentei-me a seu lado na cadeira de balanço de dona Lídia e comecei a refletir: “Há quanto tempo Lino estaria ali”? Quanto tempo teria passado? Como seria viver isolado? Como poderia viver deixando de aproveitar tudo que a vida pode oferecer? Meu Deus ele nunca correu pelo quintal, nunca jogou bola, brincou de pega-pega, esconde-esconde, não  viajou , nunca namorou não sabe o que é o amor.

Observando-o e absorvido em meus pensamentos impulsionei a cadeira e num bailado e num vai e vem e iniciei o mesmo murmúrio...
- “ Hummmmmmmmmmm, hummmmmmmmmmmmm”.
Com meus olhos fechados, como se estivesse entrando num estado de hipnose, senti uma leve brisa que acariciou meu rosto. Um arrepio tomou conta de meu corpo, uma sublime leveza  invadiu meu ser acompanhado de um breve silêncio.
Envolvido por um estado embriagador tentei evitar, mas uma força estranha obrigou-me a  abrir os olhos. Impressionado emudeci. O que jamais imaginei estava acontecendo. Lino de pé ao meu lado, sereno, estendia sua mão  cumprimentando-me como se fossemos velhos amigos,  com voz firme, porém suave, disse-me:
- Não tenha medo. Sou seu amigo. Agora  estamos juntos.
Foi impossível controlar minha emoção. Dos meus olhos uma lágrima caiu. Lino havia deixado seu estado de inércia e conduzia-me para o seu mundo esbanjando  conhecimentos. Relembramos nossa infância, das vezes que eu ficava o observando pelas frestas da janela de minha sala. Lino comentou que sentia-se bem todas as vezes que reuníamos em frente sua casa, e ficávamos brincando com bolinhas de papel, fazendo caretas, dando gargalhadas. Agradeceu nossa solidariedade.
- Que pena que vieram tão poucas vezes. Sempre esperava que viessem. Mas agora você está aqui, meu amigo.
Suas palavras eram intensas, carregadas de emoção. Poder ouvi-lo era tudo que eu mais queria. Lino não queria perder tempo e dizia que quando voltasse teria condições de ajudar muita gente.
Eu não conseguia entender do que estava falando.  Ele não dava tempo para que eu o questionasse, mesmo assim numa atitude deselegante manifestei-me:
- Do que você está falando? Voltar de onde? Você já está aqui e agora pode se comunicar com o mundo e viver sua vida como nunca. Lino respirou  fundo, desculpou-se por sua falta de sensibilidade por não deixar-me falar e concluiu:
-  Eu vou partir. Vou com eles e um dia retornarei com informações que compartilharei com a humanidade.
- Lino,porerava que viessemiamos o, Linourtir a vida, conhecer novos horizontes, c não estou entendendo! Você vai com quem? E para onde?
- Meu amigo desde pequeno eu tenho a mesma visão e o poder de comunicar-me com seres de outros planetas e numa de suas visitas avisaram que quando eu completasse quatorze anos viriam me buscar. Neste dia uma luz dourada rasgará o céu deixando um rastro pelas estrelas,  como o brilho do sol refletirá todo  seu esplendor.
Desta luz surgirá uma nave dourada com janelas escuras e luzes brilhantes que piscarão  sem parar. Esta mesma nave pousará ao amanhecer e eu serei o seu principal passageiro. Terei a missão de viajar pelas estrelas com objetivo de aprender, adquirir conhecimentos, cultura,  e retornar ao nosso planeta trazendo aos homens a sabedoria que Deus implantou no universo.
- Lino deixe disso. Tentei demovê-lo de seu delírio.
- Amigo...Acredite...Existe mesmo disco voador. Que é o transporte de um povo inteligente que irão nos trazer a paz e o amor. Se for para o bem da humanidade, veja que felicidade esta intervenção. Aqui na terra só se pensa em guerra, matar o vizinho é nossa intenção.
 Lino empolgado levantou-se da cadeira de balanço mais uma vez. Pude notar o seu esplendor. Fisicamente perfeito e dono da situação, levantou os braços olhando  para o céu, e com gesto sutil impediu  que eu o interrompesse com minha descrença e trazendo-me a realidade continuou.
Amigo, se Deus que é todo poderoso fez este colosso suspenso no ar, porque não pode ter criado um mundo apartado da terra e do mar... Tem gente que não acredita, acha que é fita os mistérios profundos, quem tem um filho, pode ter mais filhos, o Senhor também pode ter outros mundos.
E continuando seu discurso, respirou fundo e calmamente com palavras sóbrias  continuou...
- Na visão da sociedade  a minha falta de comunicação com este mundo é uma deficiência, a solução está tão perto de ser descoberto pela ciência, porém em vez de fabricar remédios para curar o tédio e outras doenças, preferem inventar armas atômicas, mísseis teleguiados, armas químicas e de hidrogênio, usam seu gênio fabricando bombas. Os homens de nosso planeta dão à impressão que já não tem mais crença, mas,  por mais que cresçam, perante Deus qualquer gigante tomba.
- Suas palavras tocaram-me profundamente. Aquele jovem de mundo distante estava ali me evangelizando. A coerência de suas palavras fazia com que o admirasse ainda mais. Lino sentou-se com movimento suave e disse:
- Amigo, o nosso mundo é um espelho que reflete a realidade. Quem forma vinha colhe uva e quem planta chuva colhe tempestade. Tudo o que não presta neste mundo morre por si mesmo. Quando eu voltar terei informações suficientes para conduzir os homens  a mudarem seus comportamentos objetivando-os  a mudar para um mundo melhor.
 Sentado em sua cadeira de balanço, Lino foi encostando, olhando em meus olhos agradeceu-me pela tarde maravilhosa.
- Num futuro breve teremos a oportunidade de nos comunicarmos outra vez.
Fechou os olhos e no seu habitual vai e vem sincronizado deu início a seu murmúrio:
- “ Huuuuuuuuuuuuuuuuu,hummmmmmmmmmmm,
hummmmmmmmmmmmm”
Lino lentamente foi se desligando  de nosso mundo, retornando a sua condição anterior.  Levantei-me desesperadamente  e tentei comunicar-me mas foi em vão. Lino estava novamente em seu mundo particular. Naquela tarde fui agraciado por Deus que permitiu que por alguns instantes eu tivesse com ele. Teria sido um sonho? A certeza da realidade me convencia.
 A partir de então passei a ver o mundo de forma diferente. Todas as tardes sentava-me com ele e ficávamos horas juntos, embora não mais tivesse tido a oportunidade de participar de seu mundo particular.
Na manhã de 21 de setembro acordei ansioso. Era o dia do aniversário de Lino, completava 14 anos. Caminhei até minha janela e vi a dona Lídia  conduzindo-o  até sua cadeira de balanço. Ele estava diferente, muito elegante. Trajava um terno escuro, camisa branca e gravata vermelha. Seria um dia especial. Lino estava como nunca o havia visto antes. Concentrado, não tirava os olhos do céu.
Um clarão surgiu no horizonte. Meus olhos ofuscaram. Corri para abrir a porta e sai. Vi Lino se levantando e andando em direção àquela luz. Sua avó rezando o abençoava.

Lino caminhou alguns passos,  virou-se em minha direção e abriu um sorriso. Ergueu sua mão direita e acenou. Entrei em desespero e comecei a correr para tentar impedi-lo de partir. Ele, com voz firme disse:
- Fique tranquilo amigo, eu voltarei.
Meu corpo ficou paralisado, como se estivesse preso num campo de força, não consegui me mover. Naquele momento convenci-me que naquele dia vivi  alguns minutos em seu mundo.  Lino lentamente foi sendo envolvido pela luz até desaparecer completamente.
Pude ficar muito próximo daquele objeto. Era uma nave, na verdade, um disco voador, dourado com janelas escuras e luzes brilhantes que piscavam sem parar, exatamente como ele havia descrito. A nave levantou voou e na velocidade da luz   rasgou o céu, em fração de segundos desapareceu. Comecei a chorar. Fiquei desorientado, neste momento senti uma mão em meus ombros acariciando-me, era a doce vovó Lídia dizendo-me:
- Meu filho, fique tranquilo, o caminho de rumos incertos do meu menino chegou ao fim. Quando Lino retornar será um homem feito, como tantos outros que retornaram. Ele voltara com a missão de melhorar nosso planeta.         



       

O SÁBIO






Durante o século 20 uma grande revolução armada ocorreu num dos maiores países asiáticos. Estas forças tomaram o poder e implantaram o regime comunista. As leis de direitos humanos foram abolidas; o cidadão teria que viver somente em função do estado. No novo sistema político era proibido, e pago com a vida, quem portasse ou possuísse pergaminhos, manuscritos, livros, revistas ou jornais. Estes foram considerados obscenos, pois contrariavam a moral e bons costumes, já que levavam as pessoas a viajarem por lugares impossíveis através da imaginação. Tudo era proibido, a não ser, os livros que fossem editados pelo novo governo, onde a escrita manipulava a população, deixando-os alienados ao atual regime.
O povo viu a sua milenar cultura ser destruída pelo fogo, sem nada poder fazer. Logo a descrença e desinformações surgiram. Os jovens não acreditavam em nada, somente no que o governo os informava, e em pouco tempo uma nova geração de adeptos floresceu. Os mais fracos e excluídos criaram seus líderes, entre eles um velho morador de uma aldeia próxima, muito paciente, atendia a todos que o procuravam. Tinha longos cabelos e barbas brancas. Era uma figura carismática e sempre tinha uma palavra de paz e orientação sobre a saúde, higiene e educação, logo sua popularidade se espalhou pelo país. As pessoas acreditavam que o velho sábio vinha fazendo milagres, mas na verdade, os orientava de como utilizar as ervas medicinais, ou sobre qualquer assunto de economia, medicina, astrologia, ou misticismo. Seu nome passou a ser uma lenda viva.
O sábio da aldeia morava num casarão enorme herdado de sua família. Adquiriu credibilidade até com os soldados fiéis do governo, pois constantemente era visitado por eles á procura de informações para solução de problemas. O governo se incomodava com a constante intervenção do sábio, porém para evitar uma convulsão social fazia vistas grossas, pois acreditavam que ele não viveria por muito tempo. O regime cruel tirava das famílias os filhos homens, ainda bebês, para fazer parte do exército no futuro, e aos 08 anos de idade era feito uma avaliação. Os que não conseguissem uma média aceitável eram dispensados e abandonados pelas ruas para viverem a própria sorte. O sábio preocupado com o futuro de seu povo saiu pelas ruas e sem muito critério escolheu 100 meninos.
Estas crianças enquanto enclausurados, sobre o domínio dos militares, aprenderam a ler e escrever. O sábio levou-os para o casarão. Após algum tempo adquiriu a confiança de todos, e sobre a promessa de um pacto de silêncio, repassaria todo seu conhecimento. Levou-os até um grande porão, através de uma passagem secreta, disfarçada de parede ornamentada com um grande relógio, onde os meninos ficaram deslumbrados ao encontrarem centenas de livros, ali guardados há muitos anos, todos cuidadosamente numerados por assunto sobre as prateleiras, envoltos com um plástico transparente para protegê-los da ação do tempo.
Os livros abordavam assuntos sobre biologia, matemática, filosofia, entre milhares de temas. O sábio pacientemente pedia silêncio á seus discípulos, e com alguma dificuldade relatou como conseguira aquele acervo. Contou-lhes que aproveitou os descuidos da polícia nos primeiros meses da revolução e visitou bibliotecas que ficaram completamente abandonadas. Conseguiu transferir para sua casa, os livros que poderiam trazer algum benefício para o futuro de seu povo.
Em pouco tempo possuía uma das melhores bibliotecas do mundo, pois selecionou os autores e um dos mais diversificados acervos de informações jamais vista.  Passou anos naquele porão, lendo e adquirindo cultura. Através dos livros conheceu países, planetas, a dinâmica do corpo humano e personalidades. Obteve tantas informações que decidiu repartir com o seu povo, na esperança que um dia, todos reunidos, pudessem recuperar a liberdade. O povo acreditava que o sábio recebia inspirações divinas, e para não levantar suspeitas ele aceitou essa condição. No entanto, já tinha idade avançada. Necessitava repassar seus conhecimentos e criar novos sábios que pudessem levar a população a cultura de seus antepassados e terem consciência daquele poder autoritário.
Os meninos encantados aceitaram o desafio, na esperança que um dia também tivessem informações para dividir com os cidadãos do país. Dedicaram-se diariamente. Liam tudo que podiam, sobre diversos assuntos. Viveram em mundos diferentes. Ávidos por mais informações, não perceberam que o tempo passava depressa. O sábio adoentado parecia aguardar o momento certo para partir. Acompanhava todos os dias o desenvolvimento cultural dos seus discípulos, que cada vez mais informados, questionavam-no ainda mais, levando o velho sábio a pesquisar para responder  todas as questões. Os meninos já orientavam as pessoas demonstrando sabedoria e conhecimento. Assim conquistaram a credibilidade do povo que os conheciam como discípulos do grande sábio.
Este fato levou os comandantes a convocá-lo a se apresentar na capital, para um interrogatório. Esta intimação chegou aos ouvidos dos meninos, que souberam da rigorosa vistoria no casarão a procura de livros. Os meninos se articularam durante dias para proteger tudo que o velho sábio havia construído.
            Dias depois, os militares acompanhados de um verdadeiro pelotão, dirigiram-se ao casarão. Desconfiados, vasculharam-no a procura de algo que pudesse incriminar o grande sábio. Encontraram a passagem secreta, e para surpresa de todos encontraram cem jovens sentados no chão de mãos dadas, com olhos fechados, como se estivessem meditando.
Um deles levantou-se e pediu aos soldados que fizessem silêncio, pois ali era um lugar de concentração, e estavam recebendo os fluídos e energias que transmitiam sabedoria. Os soldados percorreram todo porão e não encontram nada. Convencidos que os meninos estavam meditando deixaram o local. O sábio surpreendeu-se ao ver que todos os livros estavam no porão, não entendeu como os meninos havia os escondido. Os jovens contaram-lhe que através dos livros conheceram técnicas e truques de como ocultá-los na floresta, sem que ninguém pudesse vê-los. Desta forma provaram a seu mestre que praticavam tudo o que aprenderam nos livros e que buscavam mostrar o caminho da verdade ao seu povo.

Alguns anos se passaram e o velho sábio partiu, mas deixou seus discípulos e uma verdadeira legião de seguidores. Centenas de sábios foram espalhados por todo país, levando informações e cultura para os povos. O casarão foi preservado, considerado pelo governo intocável, sob pena de morte, para qualquer invasão ou infratores. Os sábios necessitando de respostas a muitas perguntas dos seus semelhantes, até hoje se reúnem no casarão e desfrutam de bons momentos, envolvendo-se nas leituras dos livros, a fim de enriquecer ainda mais seus conhecimentos, seguindo as orientações do grande mestre que sempre dizia que nunca é tarde para  aprender, e o que sabemos nunca é o suficiente. 

O VESTIDO


1900. A família Chaib chega ao Brasil e instala-se numa conhecida rua do Brás. Ali montaram uma confecção de roupas femininas, onde a esposa e os filhos tornaram-se funcionários da loja. Trabalhavam de sol a sol para o crescimento de sua pequena fábrica. Aos sábados iam á Sinagoga. As mulheres usavam roupas compridas de cores escuras e lenços na cabeça. Os homens de ternos pretos. Para diferenciar-se dos demais comerciantes Sr. Chaib mandou construir sobre a marquise da loja uma vitrine de alvenaria com vidros aparente e vestiu um manequim com o primeiro vestido ali confeccionado. Impermeabilizou-o com um produto trazido do velho continente para sua conservação. O modelo trazia um tecido fino de cor ousada. Longo e decotado, sem alças e bem acinturado, com luvas de meio punho. Este serviu de modelo para muitas moças, que desfilavam em festas com grande estilo.
Aproximadamente a cada dez anos a loja passava por reformas, mas em nenhum momento Sr. Chaib permitia que tocassem na vitrine, pois a mesma tornara-se um marco, passando até mesmo a ser um ponto turístico, levando seu comércio a crescer continuamente. Com o passar das décadas, a loja ganhou novo aspecto, apesar do vestido exposto na vitrine estar obsoleto, ainda o mantinha como seu layout, tornando-se o símbolo, a marca da empresa.
1960. A moda muda totalmente, no comprimento dos vestidos, nos tecidos, na qualidade, mas ainda assim, aquele vestido continuava sendo o marco de seu negócio.
1970. Após novos investimentos, as filiais chegaram a outros bairros, gerenciadas pelos netos. A loja matriz também se transforma, nem parecia a mesma casa construída no início do século. Os novos administradores não ousavam tocar na vitrine. Esporadicamente faziam a limpeza dos vidros, deixando-os sempre com aspecto de novos.
1980 o bisneto mais velho de Sr. Chaib iniciou seus estudos a fim de se preparar para assumir os negócios. Dez anos depois, Adib após concluir seu doutorado em administração, assume a empresa. Sua primeira atitude fora solicitar a demolição da vitrine, pois com seu conhecimento acadêmico considerava aquele símbolo ultrapassado. Não combinava mais com o novo estilo da loja. Muitos tentaram impedir que a derrubasse, mas Adib não deu ouvidos, e aquela vitrine tão estimada por muitos chegava ao fim. Ordenou que guardassem o vestido, que estava perfeito. Sua cor continuava viva. Adib sentia-se aliviado por não ver mais a velha vitrine.
Na manhã seguinte ao chegar na loja, levou um susto, olhou para cima e viu a vitrine com o vestido no mesmo lugar, como se não tivessem a tirado dali. Ficou indignado com tamanha ousadia, quem o teria desobedecido? Novamente ordenou a demolição da vitrine, os funcionários envolvidos demonstravam contrariedade, mas obedeceram, e foram obrigados a cortar o vestido. Ao amanhecer Adib voltou na loja, e não acreditou no que viu, estava surpreso. Lá estava a vitrine intacta novamente, e o vestido que mandara picotar, estava no manequim como antes. Ficou transtornado, pois ele mesmo viu quando iniciaram o trabalho de demolição. Decidiu ver de perto o que estaria acontecendo.
Naquela madrugada descobriria quem estaria lhe enfrentando. Ordenou novamente que a derrubassem e sumissem com o vestido.  Meia noite, a rua estava deserta. Adib aguardava sem saber o quê, e nem a quem. Aproximadamente 01:00 hora da manhã, ouviu barulho, eram vozes. Viu a certa distância um grupo de pessoas, aproximando-se da loja, os homens estavam trajados com ternos pretos, as mulheres com vestidos compridos de cores escuras e lenços na cabeça. Traziam ferramentas, vidros, e objetos de costura. Viu quando eles entraram na loja e rapidamente reconstruíam a vitrine, as mulheres costuravam o vestido cuidadosamente.
Adib tentava sair do lugar onde estava, mas não conseguia, parecia estar imobilizado. O tempo a sua volta passava muito rápido, queria falar, mas também não conseguia. Assim que a vitrine estava erguida, Adib conseguiu se mover e correu em direção àquelas pessoas que partiam e aos gritos questionou-os como ousavam mexer em sua propriedade? Todos pararam olhando-o fixamente, uma senhora tomou a frente e respondeu-lhe que aquela vitrine era a responsável pelo sucesso da loja  e que a ele fora dado a missão de preservá-la, disse-lhe ainda que não se constrói um futuro sem dar o devido valor ao passado.
 Adib naquele momento reconheceu os rostos daquelas pessoas. Surpreso percebeu que eram os mesmos dos retratos espalhados pelo escritório, eram os fundadores da loja, eram seus familiares, que ainda estavam ao seu lado, lutando para manter aquele patrimônio e a família unida.


PEDRAS PRECIOSAS


Por onde as pedras rolam cria-se o caminho da esperança. Com meu corpo ardendo de desejo atirei-me em busca do amor. Atenta aos detalhes não tirava os olhos dos pedregulhos, jovens, fortes, exuberantes, que desfilavam num vai e vem sem compromisso, mas uma paixão fulminante atravessou meu caminho, o pedregulho dominante, que apesar de assediado por Ametistas,  Opalas, Turmalinas, Safiras e Alexandritas, não se deixava seduzir,  como um belíssimo líder, postou-se a minha frente e com um gesto arrasador transfixou seu olhar em meu corpo. Senti naquele instante o mais nobre dos sentimentos ao puro Diamante.
Longos dias se passaram. Aos jovens enamorados um amor enlouquecedor tomou conta do nosso ser. Entre desejos e fantasias realizadas   cheguei a enjoar, senti calafrios, mal estar. Nasceu meu menino, Rubi, vigoroso, queria brincar, corria de um lado para outro, sozinho não podia ficar.
Mais tarde nasceu Esmeralda uma bela menina, olhos verdes, carinhosa e companheira. Formávamos uma família perfeita, mas antes que curtíssimos a alegria de vê-los crescer, o destino nos abençoou, com a chegada de nosso caçula Topázio, que com seus olhinhos brilhantes devolveu-nos a infância. Demonstrava que no futuro seria um líder como o pai. Com seu jeitinho maroto, obrigava-nos a brincar de ciranda-cirandinha, corre-corre, pega-pega, pula,pula... E quando a noite chegava só conseguíamos dormir a beira-mar onde nos reuníamos e  ficávamos juntinhos.

Durante a madrugada éramos banhados pelas ondas do mar, que nos levava a uma alucinante viagem pelas riquezas naturais, onde  seus  segredos  eram protegidos pelas conchas que guarda em seu ser a valiosa e feliz Pérola do oceano.

SEGREDOS DO CASARÃO



Mais um dia. A nossa cidade estava reluzente. As ruas arborizadas e o sol iluminava com todo seu esplendor. A admiração por esta maravilha era interrompida pelo barulho da reforma do velho casarão na praça, onde várias lojas estavam sendo montadas. Mesmo antes do término do casarão, um homem ainda jovem, de aproximadamente 35 anos, apressou-se em alugar uma sala, que ficava de frente para a rua. Para surpresa de todos, colocou um letreiro informando a finalidade da loja com letras enormes.
 “S A P A T A R I A”.
Seu nome é Zeca. Teve o cuidado de decorar a sapataria com estilo antigo. Ornamentou com um grande relógio de parede, preparou a bigorna, cola, avental de couro. Usava um bigodinho, tinha cabelos negros e um olhar marcante. A desconfiança das pessoas da cidade foi superada pela amizade que rapidamente conquistou junto aos moradores. Em menos de um ano de instalação já era o mais querido comerciante da praça. Dizem que certa tarde a senhora Bonfá chegou à sapataria com grande dificuldade e começou a reclamar da vida. Lamentava que tinha que ser internada, mas não tinha condições, nem convênio médico, para tratar do seu grave problema de circulação. Zeca a ouvia pacientemente e após consertar a sua sandália levou-a até a sua casa. Durante a caminhada confortou-a dizendo que ficasse tranquila, pois tudo seria resolvido.
Para a surpresa de todos,  um concurso de uma rádio local, presenteou dona Bonfá com um internamento e tratamento médico, o qual curou-a definitivamente. O velho Mané também foi agraciado, após se queixar com o sapateiro, conseguiu o emprego que tanto desejava numa das filiais da Petrobrás. A turma do morro, frequentadores assíduos da sapataria, reclamava da falta de água, de luz, esgoto e asfalto. Não demorou muito, o governo Federal aprovou uma verba, para o saneamento básico daquela região, pois esta faria parte de um circuito turístico que a cidade fora contemplada para fazer parte.
Dona Celina, a mulher mais idosa do bairro ,dizem que ela tem 90, 93, 95 anos, na verdade nunca se questionou a idade daquela senhora, reparou que os sapatinhos de seus netinhos precisavam de conserto e decidiu levá-los a sapataria. Apesar de sua idade, caminhava firme, atravessou as ruas cautelosamente e chegou à praça de onde podia avistar o casarão todo reformado. Parou, observou, e percebeu que alguma coisa lhe chamava atenção. Notou que a decoração da sapataria era semelhante a uma que frequentava quando criança. Teve a oportunidade de lembrar de seus pais, de seus irmãos, principalmente de seu irmão caçula, que há mais de sessenta anos não via, nunca tivera informações ou mesmo notícias sobre ele.
Com tantas lembranças passou a caminhar mais lentamente. Na verdade se deliciava com tantas recordações maravilhosas. Seu coração disparou quando viu aquele homem que veio recebê-la... Mas era o mesmo rapaz?!...Era idêntico ao sapateiro que tinha em sua mente, como podia ser? Seria ele o bisneto do velho sapateiro que trabalhava em sua cidade quando era criança? Zeca a recebe com atenção. A princípio um pouco tenso, mas respira fundo e dando-lhe um sorriso a cumprimenta:
- Olá Nina!
Era assim que a chamavam quando criança.
- Como sabe o meu apelido?
- Eu sei tudo. Sei também onde está seu irmão. Bateu-lhe um certo desespero misturado a ansiedade. Dona Celina segurou-lhe as mãos e implorava que lhe desse informações sobre seu querido irmão. Zeca pediu que se acalmasse:
- Sente-se. Acalme-se. Vou lhe contar enquanto conserto os sapatinhos de seus netinhos. Dona Celina ouvia atentamente, e logo começou a contar toda a sua história, e sem que ela percebesse narrava situações em que o sapateiro participava. Ao terminar o conserto Zeca pediu que Dona Celina voltasse para a casa, pois teria uma surpresa muito agradável. Quando o carteiro passou, entregou-lhe uma carta de seu irmão, há tanto tempo desaparecido. Dona Celina estava incrédula. Saiu pelas ruas, para tirar informações do sapateiro, só recebia referências maravilhosas sobre ele, que ajudou o prefeito a fechar um grande contrato com empresas para se instalar no município, gerando desta forma muitos empregos. Conseguiu incentivar os moradores a reformarem suas casas e construírem em lugares seguros, longe dos morros, e livres do risco de desabamentos. Escolas para todas as crianças carentes. Vagas para adolescentes em cursos profissionalizantes. Dona Celina ficou encantada. Em sua mente voltou a imagem de infância, lembrou-se que havia tirado uma fotografia em frente a sapataria, que estava guardada em seu baú. Apressou-se e rapidamente voltou para sua casa, procurou até encontrar. Seus olhos não podiam acreditar no que viram. A decoração do casarão da foto era exatamente igual a da sapataria de Zeca. Saiu e foi até lá. Chegando surpreendeu-se ao notar que os detalhes eram os mesmos, a bigorna, a cola, o avental pendurado no mesmo lugar. Um calendário de 1907, o relógio de parede, os móveis, a banqueta. Tudo igual. Olhava para a fotografia e falava admirada:
- Não sei como você consegue? Sabe quando éramos pequenos, meu pai já estava muito doente, com tuberculose... Antes mesmo que Dona Celina terminasse de falar, Zeca segurou-lhe nas mãos e disse:
- Eu sei Nina! Você entrou por esta porta e chorava dizendo que seu pai iria morrer, e que vocês ficariam desamparados. Apesar dos exames da época, os médicos tiveram que reconhecer que haviam errado no diagnóstico, pois não passava de uma gripe forte.
- Foi você, não foi? Não é possível, ele estava á beira da morte, de repente, sarou e cuidou de toda a família, como se nada tivesse acontecido.
- Sim Nina, fui eu. Por alguma razão fui escolhido para viver assim. Há séculos ando pelo mundo como sapateiro, ajudando a todos que me procuram. Fico em cada lugar até que os moradores comecem a desconfiar de alguma coisa, porque eles envelhecem e eu permaneço jovem. Então este é o sinal que chegou a hora de mudar de lugar e recomeçar. Esta é minha missão. Dona Celina levantou-se e disse
- Agradeço a Deus por esta oportunidade, pois assim que meu pai melhorou, o senhor partiu, e pedi a Deus que não me deixasse morrer sem antes agradecer àquele que fora o motivo de sua cura.
Agora sei do seu segredo, e sei que irás partir, pois já ouço rumores que o senhor mantêm-se muito jovem desde que chegou aqui.



PRISIONEIROS DA VONTADE



Você encontra este livro a venda em diversas livrarias
ou   através do site
www.necontos.com.br

LIVRE PARA VOAR...O PASSARINHO

“LIVRE PARA VOAR”
O PASSARINHO


- Menino fique quieto você vai se machucar. Você ainda é muito pequeno, volte para o poleiro.
- Eu quero brincar mamãe. O que é aquilo lá embaixo?
- É o cão da casa meu filho.
- Mas ele faz um barulho estranho e muito alto. - É assim que ele fala, nós não o entendemos, mas de alguma forma ele nos protege.
- E como ele se chama mamãe?
- Não sei filho, somente cachorro.
- E o que são essas coisas mamãe?
- São os donos da casa, eles que cuidam de nós e também nos alimentam, e cantamos para eles, meu filho.
- Eu vou cantar também mamãe?
- Logo, logo, você estará cantando.
- Mas eles nem olham para nos mamãe!
- É que já se acostumaram e nem percebem que estamos aqui.
- Mamãe, eu quero sair e voar lá fora.
- Não meu filho, eles não vão deixar.
- Porque mamãe?
- Eles nos tratam como um objeto e querem ficar nos ouvindo o tempo todo.
- O que é objeto, mamãe?
- É como se fosse uma peça. Está vendo aquele sofá ali embaixo? É uma peça e muito importante, eles sentam para conversar, mas nem percebem que ele está ali também.
- Mamãe, porque eles estão cobrindo nossa casa?
- Bem filho ninguém sabe, mas toda tarde assim que o sol se esconde eles vêm com essa mania.
- Será mamãe que eles não querem que nós vejamos alguma coisa?
- Sei lá filho! Sei lá, vamos dormir.
- Estou com fome mamãe.
- Coma o que os eles puseram durante à tarde.
- Mas é horrível comer aquilo.
- Sim menino, mas é a única coisa que nos oferecem, como isso há anos.
- Mamãe porque eles não colocam alguma coisa com sabor mais gostoso?
- Não sei filho, eles acham que gostamos, e nunca trocam o cardápio. É sempre essa semente horrorosa, e ainda temos que agradecer, cantando, pois às vezes eles se esquecem, então temos que cantar e cantar muito, senão partimos, coma e vá dormir.
- Menino fique quieto, volte para o seu poleiro.
- Mamãe o que é aquela luz e muitas coisas balançando?
-Menino aquilo faz parte da natureza, é o sol que brilha, e vento que balança as folhas das árvores. Elas que dão frutos gostosos, sombra e segurança para nossos semelhantes que estão soltos.
- O que é solto mamãe?
- Solto é ser livre. Nossos semelhantes estão livres, podem voar, subir e descer, podem viver e vão muito longe, podem conhecer outras terras, as matas, os rios, migram de um lugar para outro, fazem seus ninhos onde querem, amam somente os que desejam e não o que eles nos impõe.
- Mamãe eu quero ser como eles.
- Não meu menino, você não pode, você nasceu aqui nesta casa, você está encarcerado, seu espaço para voar e brincar é somente este. E logo vão nos separar e você terá um cárcere somente seu.
- Mas eu não quero me separar de você mamãe. Quero ficar aqui a vida toda ao seu lado.
- Menino eles não vão permitir. A separação será inevitável, pois, enquanto você não sentir saudade, não conseguirá cantar. E é isso que eles esperam de você.
- Mas se gostam quando cantamos, porque não nos soltam para cantarmos ali na árvore junto com os outros e eles vão nos ouvir, mamãe!
- Não menino eles são egoístas, querem que cantemos somente para eles.
- Eu não quero ficar somente aqui nesse cárcere, quero conhecer tudo que a vida pode me oferecer mamãe, o que fizemos para merecer vivermos presos assim?
- Nascemos pássaro meu filho, e eles com a força do poder resolveram nos prender. Filho eu estou vendo uma casa nova pendurada ao lado, com certeza ao amanhecer você estará morando nela.
- Não quero, não quero, vou ficar aqui...
- Menino fique quieto você vai se machucar. Eles apenas querem te transferir para a nova casa, você já cresceu e aqui ficou pequeno para nós dois. O que está achando filho, a sua casa é maior, aproveite, veja o sol e as árvores, ela fica em frente à janela e a sua visão é mais privilegiada que a minha. Não chore meu filho, não chore, você está cantando, e cantando muito bonito.
- Estou cantando de dor...de dor no peito, minha mãe.Nunca senti isso antes, queria estar ai com você ou voando lá fora. Dói, dói muito mamãe.
- É preciso cantar para poder suportar essa dor. Vamos mamãe cante...cante comigo...somente assim vou poder sobreviver.

...ALECRIM, ALECRIM DOURADO, QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO...ALECRIM, ALECRIM DOURADO QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO... ÓH! MEU AMOR...QUEM TE DISSE ASSIM...QUE A FLOR DO CAMPO...É O ALECRIM?........
- Mamãe o que é isso em cima da minha casa?
- Cuidado filho é um gato.Ele quer te pegar, fique longe dele, pule de um lado para outro, assim ele não conseguirá pegá-lo e cante, cante muito.Eu vou ajudar, vamos chamar atenção para alguém poder lhe salvar.
- Que barulho é esse mamãe?
- É o velho cão da casa, não falei que ele cuidava de todos aqui. Precisamos agradecer, pois colocou o gato para correr e salvou você meu menino.
- Ele está nos olhando parece que está nos entendendo, mamãe vamos cantar...e cantar... ele saberá que estamos agradecendo. Mamãe o que eles estão fazendo no objeto sofá?
- Não olhe meu filho, chamam isso de amor.
- Mas mamãe parece que estão brigando, estão se enrolando...até tiraram a roupa.
- Vamos dormir menino, já está na hora.
- Mamãe eles nem se preocuparam em cobrir nossa casa hoje?
- É!
- Estão muito ocupados não é mamãe!.......................

- Meu filho você está crescendo, já não o entendo como antes. Você não me chama mais de mamãe e nem me convida mais para cantar. Agora canta sozinho o tempo todo, não fala comigo, fica aí cantando e cantando. Fale comigo meu filho, e pare de chorar.
- Preciso sair daqui mamãe, estou sofrendo muito. Vejo nossos semelhantes livres lá fora, vão e vem, crescem, casam e logo vejo outros deles menores, mas logo crescem também e ficam livres, e eu fico aqui, por quê? Mamãe!? Porque eles não me soltam para que eu possa voar e conhecer o céu, as nuvens, a chuva, o sol, vou cantar, cantar, até que consiga atingir o coração de um deles, me ajude mamãe...me ajuda... vamos cantar como nunca..................

...ALECRIM, ALECRIM DOURADO, QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO...ALECRIM, ALECRIM DOURADO QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO... ÓH! MEU AMOR...QUEM TE DISSE ASSIM...QUE A FLOR DO CAMPO...É O ALECRIM?........
- Mamãe! Mamãe! Mãezinha! Você está zangada comigo...Fiz alguma coisa que a aborrecesse...Estou notando que você não come, e nem bebe direito há dias, e não sobe mais no seu poleiro...Fica aí no cantinho...quietinha...jururu... o que está acontecendo mamãe?
- Filho, devo partir logo, há minha hora está chegando, não consigo vê-lo, somente ouvi-lo. Quero que você saiba que a mamãe te ama muito e compartilha de sua dor...dor que esmaga meu pequeno coração, mas que é do tamanho do mundo e é todo seu...Cante, cante para mim, pois quero ter a certeza que você está aí, e me ajudará, terei saudades...Tanta saudade meu filho...
- Mamãe, não estou entendendo nada, o que é partir?
- Mamãe, mamãe.Mamãe.Mamãe.................................
- O que você está fazendo na casa de minha mãe?
- Quem é você?
- Sou um canário do reino. O mais legítimo canário do reino. Fui adquirido por um preço exorbitante, nenhum outro pássaro foi tão valorizado...Fui o astro da feira... e aqui estou menino, não queria ocupar a casa de sua mãe, mas não tive escolha. A minha plumagem e o meu canto encantou o comprador que não economizou para adquirir-me. Fui jogado para esta gaiola. Meu rapaz, na feira comenta-se muitas coisas... ouvi dizer na feira que sua mãe morreu e vim para substituí-la.
- Minha mãe o quê? Repita seu canário. Ela disse-me que ia partir, minha mãe nunca mentiu para mim.... O que é morrer seu canário do reino? Diga-me o que é morrer?
- Menino, morrer é acabar, falecer, sumir...deixar a vida, é o fim. Vamos embora e não voamos mais, não comemos, nem bebemos e principalmente não cantamos, nossos corpos são enterrados, geralmente no jardim e logo uma flor nasce em homenagem àqueles que partiram. Meu menino... Sua mãe nasceu e viveu aqui nesta gaiola, que você chama de casa, mas na verdade foi prisioneira e o tempo todo escrava do canto, cantava para sobreviver. Cantava para emocionar, cantava também para te fazer feliz, cantava com esperanças de um dia ser livre, mas foi embora sem sentir o ar da liberdade, sem sentir a carícia do vento em seu ser. Não chore meu menino... sua mãe com certeza sabia o que o destino reservara para ela, e agora deve estar num lugar melhor do que aqui. Cante, isso mesmo, cante meu menino... cante, cante de dor e de saudade.

...ALECRIM, ALECRIM DOURADO, QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO...ALECRIM, ALECRIM DOURADO QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO... ÓH! MEU AMOR...QUEM TE DISSE ASSIM...QUE A FLOR DO CAMPO...É O ALECRIM?........

- Meu menino... eu que já voei pelos quatro cantos do mundo, tenho o coração vazio.. Voei pelos campos...nos campos vi flores...nas flores o mel...As noites estreladas, quando tem luar ficam ainda mais bonitas, dando-nos uma falsa esperança de liberdade. Sabe meu menino...eu também não sou de ferro...quando fui preso deixei meus pequeninos sozinhos. É muito cedo para eles compreenderem que eu não os abandonei, fiquei á frente dos caçadores para protegê-los. A alegria que sentia quando voava para alimentá-los não sinto aqui. Estou sofrendo, mas agora cantar talvez seja a solução...Cante ...Cante comigo....

...ALECRIM, ALECRIM DOURADO, QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO...ALECRIM, ALECRIM DOURADO QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO... ÓH! MEU AMOR...QUEM TE DISSE ASSIM...QUE A FLOR DO CAMPO...É O ALECRIM?........
- Meu menino...Tenho notado que há dias você não come e nem bebe direito, não salta e nem canta, você está doente, reaja, você ainda é muito jovem,. Agora que te encontrei não quero perdê-lo. Por favor reaja, salte...Vamos salte sobre o seu poleiro e cante, vamos cante menino. Por favor cante...cante...
- Sr.canário do reino não quero, preciso de liberdade. Eu estou muito triste, tenho tanta saudade de minha mãe...de ouvi-la cantar. Sr canário do reino não estou enxergando nada, não tenho sede e nem fome, estou fraco, cansado, preciso dormir. Vou ficar aqui quietinho... jururu no meu cantinho. Sr. Canário do reino cante para mim, cante alto e forte. Por favor, cante...............................
...ALECRIM, ALECRIM DOURADO, QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO...ALECRIM, ALECRIM DOURADO QUE NASCEU NO CAMPO SEM SER SEMEADO... ÓH! MEU AMOR...QUEM TE DISSE ASSIM...QUE A FLOR DO CAMPO...É O ALECRIM?........
- Mamãe, você está aqui. Você voltou, você está livre, está voando. Que céu lindo, quantos pássaros, quantas árvores, quanta liberdade, mamãe você está linda.
- Meu filho, você agora está livre, eu estava te esperando. Ninguém mais pode nos prender, vamos voar como nunca, estamos livres agora, vamos meu filho.
- Vamos mamãe. Vamos....................................