Total de visualizações de página

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O SÁBIO






Durante o século 20 uma grande revolução armada ocorreu num dos maiores países asiáticos. Estas forças tomaram o poder e implantaram o regime comunista. As leis de direitos humanos foram abolidas; o cidadão teria que viver somente em função do estado. No novo sistema político era proibido, e pago com a vida, quem portasse ou possuísse pergaminhos, manuscritos, livros, revistas ou jornais. Estes foram considerados obscenos, pois contrariavam a moral e bons costumes, já que levavam as pessoas a viajarem por lugares impossíveis através da imaginação. Tudo era proibido, a não ser, os livros que fossem editados pelo novo governo, onde a escrita manipulava a população, deixando-os alienados ao atual regime.
O povo viu a sua milenar cultura ser destruída pelo fogo, sem nada poder fazer. Logo a descrença e desinformações surgiram. Os jovens não acreditavam em nada, somente no que o governo os informava, e em pouco tempo uma nova geração de adeptos floresceu. Os mais fracos e excluídos criaram seus líderes, entre eles um velho morador de uma aldeia próxima, muito paciente, atendia a todos que o procuravam. Tinha longos cabelos e barbas brancas. Era uma figura carismática e sempre tinha uma palavra de paz e orientação sobre a saúde, higiene e educação, logo sua popularidade se espalhou pelo país. As pessoas acreditavam que o velho sábio vinha fazendo milagres, mas na verdade, os orientava de como utilizar as ervas medicinais, ou sobre qualquer assunto de economia, medicina, astrologia, ou misticismo. Seu nome passou a ser uma lenda viva.
O sábio da aldeia morava num casarão enorme herdado de sua família. Adquiriu credibilidade até com os soldados fiéis do governo, pois constantemente era visitado por eles á procura de informações para solução de problemas. O governo se incomodava com a constante intervenção do sábio, porém para evitar uma convulsão social fazia vistas grossas, pois acreditavam que ele não viveria por muito tempo. O regime cruel tirava das famílias os filhos homens, ainda bebês, para fazer parte do exército no futuro, e aos 08 anos de idade era feito uma avaliação. Os que não conseguissem uma média aceitável eram dispensados e abandonados pelas ruas para viverem a própria sorte. O sábio preocupado com o futuro de seu povo saiu pelas ruas e sem muito critério escolheu 100 meninos.
Estas crianças enquanto enclausurados, sobre o domínio dos militares, aprenderam a ler e escrever. O sábio levou-os para o casarão. Após algum tempo adquiriu a confiança de todos, e sobre a promessa de um pacto de silêncio, repassaria todo seu conhecimento. Levou-os até um grande porão, através de uma passagem secreta, disfarçada de parede ornamentada com um grande relógio, onde os meninos ficaram deslumbrados ao encontrarem centenas de livros, ali guardados há muitos anos, todos cuidadosamente numerados por assunto sobre as prateleiras, envoltos com um plástico transparente para protegê-los da ação do tempo.
Os livros abordavam assuntos sobre biologia, matemática, filosofia, entre milhares de temas. O sábio pacientemente pedia silêncio á seus discípulos, e com alguma dificuldade relatou como conseguira aquele acervo. Contou-lhes que aproveitou os descuidos da polícia nos primeiros meses da revolução e visitou bibliotecas que ficaram completamente abandonadas. Conseguiu transferir para sua casa, os livros que poderiam trazer algum benefício para o futuro de seu povo.
Em pouco tempo possuía uma das melhores bibliotecas do mundo, pois selecionou os autores e um dos mais diversificados acervos de informações jamais vista.  Passou anos naquele porão, lendo e adquirindo cultura. Através dos livros conheceu países, planetas, a dinâmica do corpo humano e personalidades. Obteve tantas informações que decidiu repartir com o seu povo, na esperança que um dia, todos reunidos, pudessem recuperar a liberdade. O povo acreditava que o sábio recebia inspirações divinas, e para não levantar suspeitas ele aceitou essa condição. No entanto, já tinha idade avançada. Necessitava repassar seus conhecimentos e criar novos sábios que pudessem levar a população a cultura de seus antepassados e terem consciência daquele poder autoritário.
Os meninos encantados aceitaram o desafio, na esperança que um dia também tivessem informações para dividir com os cidadãos do país. Dedicaram-se diariamente. Liam tudo que podiam, sobre diversos assuntos. Viveram em mundos diferentes. Ávidos por mais informações, não perceberam que o tempo passava depressa. O sábio adoentado parecia aguardar o momento certo para partir. Acompanhava todos os dias o desenvolvimento cultural dos seus discípulos, que cada vez mais informados, questionavam-no ainda mais, levando o velho sábio a pesquisar para responder  todas as questões. Os meninos já orientavam as pessoas demonstrando sabedoria e conhecimento. Assim conquistaram a credibilidade do povo que os conheciam como discípulos do grande sábio.
Este fato levou os comandantes a convocá-lo a se apresentar na capital, para um interrogatório. Esta intimação chegou aos ouvidos dos meninos, que souberam da rigorosa vistoria no casarão a procura de livros. Os meninos se articularam durante dias para proteger tudo que o velho sábio havia construído.
            Dias depois, os militares acompanhados de um verdadeiro pelotão, dirigiram-se ao casarão. Desconfiados, vasculharam-no a procura de algo que pudesse incriminar o grande sábio. Encontraram a passagem secreta, e para surpresa de todos encontraram cem jovens sentados no chão de mãos dadas, com olhos fechados, como se estivessem meditando.
Um deles levantou-se e pediu aos soldados que fizessem silêncio, pois ali era um lugar de concentração, e estavam recebendo os fluídos e energias que transmitiam sabedoria. Os soldados percorreram todo porão e não encontram nada. Convencidos que os meninos estavam meditando deixaram o local. O sábio surpreendeu-se ao ver que todos os livros estavam no porão, não entendeu como os meninos havia os escondido. Os jovens contaram-lhe que através dos livros conheceram técnicas e truques de como ocultá-los na floresta, sem que ninguém pudesse vê-los. Desta forma provaram a seu mestre que praticavam tudo o que aprenderam nos livros e que buscavam mostrar o caminho da verdade ao seu povo.

Alguns anos se passaram e o velho sábio partiu, mas deixou seus discípulos e uma verdadeira legião de seguidores. Centenas de sábios foram espalhados por todo país, levando informações e cultura para os povos. O casarão foi preservado, considerado pelo governo intocável, sob pena de morte, para qualquer invasão ou infratores. Os sábios necessitando de respostas a muitas perguntas dos seus semelhantes, até hoje se reúnem no casarão e desfrutam de bons momentos, envolvendo-se nas leituras dos livros, a fim de enriquecer ainda mais seus conhecimentos, seguindo as orientações do grande mestre que sempre dizia que nunca é tarde para  aprender, e o que sabemos nunca é o suficiente. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário